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Conceição Evaristo e a certeza de que perdemos novamente a chance de fazer história.

Em julho deste ano, Conceição Evaristo, 71 anos, cruzava de barco a Restinga da Marambaia, debaixo de sol, e se embrenhava na mata para ter um encontro com os quilombolas e caiçaras do isolado Quilombo da Marambaia. Pé na terra, abraçou, comeu, ouviu e falou. Viveu.

Dodô Azevedo.

Poema Vozes-Mulheres.

O cineasta Carlos José Fontes Diegues, conhecido como Cacá Diegues, foi eleito para ocupar a cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras, que tem como patrono Castro Alves, autor de fundamentais textos sobre a condição do negro escravizado no Brasil, pertencente ao também cineasta Nelson Pereira dos Santos, que veio a falecer em abril de 2018.

Diegues venceu outros dez candidatos, entre eles, a escritora Conceição Evaristo. A votação foi feita por escrutínio secreto e Conceição recebeu apenas um voto, apesar da campanha feita por movimentos negros e feministas. Vamos frisar que dos atuais 39 membros, apenas cinco são mulheres. A Academia Brasileira de Letras, fundada por um homem negro, Machado de Assis, em seus 121 anos de existência, não possui uma única mulher negra imortalizada.

Conceição Evaristo seria a primeira mulher negra a integrar a ABL. Não foi. Mas isso diz mais à respeito do Brasil, da Academia, e de nossa Cultura, do que sobre a autora.

Conceição tem dois romances publicados, sendo o principal deles Ponciá Vicêncio (2003), um livro de poema e três de contos, além de ter tido sua obra publicada em dezenas de antologias. Olhos D’Água (2014) recebeu o Prêmio Jabuti em 2015 como melhor obra de contos. A autora é conhecida por abordar sobretudo temas relacionados ao racismo, gênero e classe. Ela é também mestra em literatura brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Ser homem é não ter gênero, é pairar acima dele; enquanto uma mulher, não importa que seja escritora, cientista ou jardineira, será primeiramente e acima de tudo uma mulher.

Aline Valek para a CartaCapital.

Em 115 anos, apenas 14 mulheres receberam o prêmio Nobel de Literatura. No Prêmio Camões, que é concedido por Brasil e Portugal a escritores lusófonos, apenas seis mulheres foram homenageadas em 28 anos. O Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, foi dado a apenas 12 mulheres desde 1959, e apenas na categoria “Romance”. Importante frisar que o mercado editorial quando finalmente abriu espaço para as mulheres, apesar da relutância, as obras publicadas acabavam sendo muito restritas e focadas na manutenção da feminilidade, sobre um olhar visando perdurar o machismo, o elitismo e o racismo.

Pouco lemos obre a nossa realidade, sobre os nossos anseios, medos, a pobreza e a violência urbana que nos acomete diariamente. Pouco lemos sobre o que é ser negro, sobre a nossa cultura. A nossa literatura é elitizada, apenas tem voz quem pode financia-la.

Sobre os estereótipos raciais e de gênero, podemos retomar a citação sobre Carolina Maria de Jesus em sua biografia. Um dos motivos do seu esquecimento foi justamente ela não corresponder ao que esperavam dela, sendo descartada já em 1961 pela sociedade e mercado editorial.

O machismo irá atingir todas as mulheres escritoras, isso é fato. Mas precisamos compreender que ele opera sobre cada grupo de mulheres de maneiras bem distintas, em relação às mulheres negras nem se fala.

Jarid Arraes para Revista Fórum.

A Academia Brasileira de Letras ainda permanece perpetuando os mesmos preconceitos de 100 anos atrás, a diferença é que colocam umas raras exceções, para tentar esconder a realidade. Toda escrita da mulher negra é um ato político, mas continuamos sendo silenciadas e ignoradas pela história. Não somos julgadas pelo que escrevemos, sim pelo nosso gênero e pela cor da nossa pele.

Tenho cada vez mais certeza que nossa luta não está sendo em vão. Somos capazes de escreviver um futuro, graças a mulheres como Conceição e mesmo façam questão de apagar essa história, ela resiste, ela existe.

A Academia Brasileira de Letras não merece Conceição Evaristo, e cada dia mais acredito que nem nós.

 

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